O novo museu ligado ao arroz de Estarreja quer ser uma peça da «máquina impulsionadora» destinada a contar a história da orizicultura e a impedir o seu fim.
Perfil
Nome: Juliana Cunha
Idade: 39 anos
Natural de Avanca, Estarreja. Licenciou-se em 2008, em Ciência da Informação Arquivística e Biblioteconómica pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Desempenha funções no Município de Estarreja desde 2010. Desde sempre interessada pelo património e história local, conclui em 2024 o Mestrado em Património Cultural e Museologia na mesma faculdade com a tese "A indústria de descasque de arroz no concelho de Estarreja: património, identidade e musealização". É desde 2024 directora do Museu Fábrica da História - Arroz.
Entrevista na íntegra com a Drª Juliana Cunha, directora do Museu Fábrica da História - Arroz, realizada por Rui Cunha
Quando chegamos ao Museu Fábrica da História- Arroz, Juliana Cunha está sentada a uma secretária no seu gabinete envidraçado. Directora desde a inauguração, em setembro passado, fala-nos deste novo espaço museológico - do que foi preciso fazer para o pôr a funcionar e do que se espera dele, numa altura em que a orizicultura local enfrenta tempos dificeis. Esta mulher de 39 anos guia-nos depois pelos vários pisos da antiga fábrica de descasque de arroz- num deles cruzamo-nos com um grupo de visitantes de um lar de Oliveira de Azemeis, que ouvem as explicações de uma técnica municipal. Deixa-se fotografar em alguns locais do museu, como junto a uma instalação criada com 720 lâmpadas LED. «É bonito, não é?», pergunta. Dirigir este novo espaço, diz, tem sido «uma experiência única».
Diário de Aveiro: O museu abriu em setembro. Quais os primeiros números de visitantes?
Juliana Cunha:O museu abriu no dia 14 de setembro de 2024 e até ao final do ano tivemos cerca de 1.500 visitantes. Além dos visitantes que fizeram o percurso expositivo, tivemos também o museu ativado com programação no mês de outubro e no mês de novembro, onde participaram cerca de 120 participantes nestas atividades. No mês de outubro houve a apresentação de uma reedição do livro do autor Sérgio Paulo Silva, que se intitula “Salreu, uma aldeia em papel de arroz”, onde estiveram também presentes várias pessoas daqui do concelho e não só. E em novembro tivemos outra ativação do museu com uma prova gastronómica no âmbito da atividade Arroz com História: tradição em mãos. Uma atividade que é realizada essencialmente nos campos do arroz, em que todas as pessoas podem experimentar a sementeira, a plantação, a monda, a colheita e depois a prova. Na prova contamos com cerca de 60 participantes que tiveram a oportunidade de provar o nosso arroz no Museu. É esse também o nosso propósito, ativar o museu mensalmente para que seja um museu vivo.
Estes números são números que vos satisfazem?
Sim, bastante. O Museu é muito recente. Estamos expectantes para esta época de Primavera e Verão e cremos que vamos conseguir aquilo a que nos propusemos.
Entretanto falta abrir ainda o restaurante...
É verdade, falta abrir o restaurante, que é localizado no segundo andar do edifício e que será mais um local de tributo ao arroz do Baixo Vouga Lagunar. Em breve haverão novidades. Mais um elo que completará o Museu e vice-versa.
Abrir um museu é um processo complexo. A Juliana já estava a trabalhar nisto desde 2017. O que é que foi necessário para chegar a setembro de 2024 e abrir um museu?
Todo este processo começou em 2015, quando as ruínas desta antiga fábrica de descasque do arroz foram doadas ao Município. O museu está instalado nas ruínas de uma antiga fábrica de descasque de arroz que começou a laborar em 1922 e funcionou até o final da década de 1980. Em 2015, o edifício foi então doado à Câmara pela família de Carlos Marques Rodrigues, fundador da fábrica, e a partir daí começou-se a criar a estratégia municipal de criar um museu que preservasse esta cultura e identidade. Desta forma, em 2017, iniciámos o projeto de recolha de testemunhos, de bater a todas as portas e tentar perceber que pessoas estavam ligadas a esta temática, nomeadamente ex-trabalhadores da antiga fábrica, pessoas ligadas à cultura do arroz, produtores, familiares do fundador, etc. Começámos pelo património imaterial, que era o mais urgente, porque já havia poucas pessoas que tinham trabalhado ou que estavam ligadas na primeira pessoa aqui a esta unidade. Começámos à procura destas gentes, aqui a nível concelhio e até fora do concelho, e a bater às portas, a pedir os seus testemunhos para que pudéssemos começar a contar a história desta antiga unidade industrial.
Bateram literalmente às portas? Foram mesmo à casa das pessoas?
É verdade. Nós conseguimos ter acesso a um livro de registo de funcionários da antiga fábrica e, a partir dos nomes, começámos a juntar as peças e sabíamos que morava em determinado sítio. Não sabíamos muito bem os locais exatos onde encontrar essas pessoas, e por isso, fomos mesmo para a rua, literalmente, perguntar onde é que moravam, para que conseguissem dar o seu testemunho... E conseguimos chegar a algumas que estavam bem, à época, e elas assentiram com muito entusiasmo e foram entrevistadas e puderam transmitir as suas memórias, que foram muito importantes para se começar a escrever a história deste museu.
Deve ter sido muito apaixonante… Falar com as pessoas, ouvir as suas histórias…
Muito. Para este museu, o mais importante são as gentes e as suas estórias e memórias. Então, a partir daí, começámos logo a envolver a comunidade. A comunidade saudosa desta antiga fábrica, assentiu de imediato. Porque apesar deste edifício estar em ruínas durante muitos anos, moldou sempre aqui esta zona da cidade. Muita gente esteve ligada à fábrica, ou porque tinha alguém que aqui trabalhava, ou porque conhecia, ou porque brincava perto, ou porque passava na estação ou no esteiro. Foi muito apaixonante porque as pessoas estavam todas muito ligadas emocionalmente. Ter tido a oportunidade de falar com essas pessoas foi fantástico, porque o património imaterial e as memórias são imprescindíveis para a compreensão da história local. A par disso, precisamos de documentos, de investigação histórica, de algo que sustente estas memórias. Conseguimos chegar à fala com o neto do fundador e ele veio dar a sua entrevista. Esta fábrica foi sempre gerida pela família Marques Rodrigues, a gerência passou sempre de geração em geração. Em 2017, chegámos à fala com o neto do fundador, que tinha sido sócio-gerente no final em que a fábrica esteve a laborar. Foi tudo fotografado, videografado, documentado. Na altura viemos com ele às ruínas para poder documentar e ilustrar o seu testemunho. A fábrica era constituída por dois edifícios – um já foi demolido, que era onde funcionavam os escritórios. Subimos umas escadas, em madeira, a ranger e dirigimo-nos à parte do escritório onde estavam inclusive sem-abrigo a viver. Havia lá um cofre, e o senhor diz assim: “eu ainda sei o código daquele cofre”.
E sabia mesmo?
E sabia mesmo. O senhor abre o cofre. O cofre, ao longo de 30 anos, tinha marcas de arrombamento, mas como era uma caixa forte ninguém tinha conseguido abrir. O senhor abriu o cofre e lá dentro está tudo aquilo que vocês possam imaginar: documentos, fotografias, livros, revistas, jornais, objetos, contratos com produtores de arroz, etc. Tudo aquilo que nós precisávamos para ajudar a complementar as memórias e a história desta antiga unidade industrial. Algumas coisas estão aqui expostas, outras temos guardadas para ir renovando.
Um verdadeiro tesouro…
Uma autêntica cápsula do tempo, que só acontece uma vez na vida profissional e que eu tive o privilégio de assistir, de analisar e que nos ajudou, a par com as fontes documentais e com outra investigação histórica mais aprofundada, a contar a história deste museu. Foi único e irrepetível.
O museu é aberto numa altura em que a orizicultura está em declínio já há alguns anos. Essa é uma preocupação sua, enquanto estarrejense e diretora do museu?
É uma preocupação nossa, naturalmente, e por isso também esta estratégia de criar este museu. Este museu, além da missão museológica, com o objetivo de preservar o passado e o e de perspetivar o presente, tem uma missão que transcende isto tudo, que é fazer parte desta máquina catalisadora, do impulso da cultura do arroz no nosso território, a par com os orizicultores. Nós somos uma pequena zona orizicultora e naturalmente não queremos competir com as zonas do Sul do país, mas queremos dar a este produto um selo “premium”, único, porque realmente tem características únicas. E queremos que o museu faça parte deste impulso e missão, que transcende as suas missões museológicas.
Mas será possível recuperar alguma da força que a atividade chegou a ter em Estarreja?
Manter e dar este selo único e “premium”, acho que é totalmente possível, é essa a nossa estratégia. Ter sempre produção de arroz, porque a produção de arroz, nos séculos passados, no distrito de Aveiro, acontecia em todos os concelhos. Atualmente, Estarreja é o único concelho da região onde ainda se cultiva o cereal, nomeadamente nas freguesias de Canelas e Salreu, e por isso este foco e esta estratégia de manter esta cultura e dar este selo único e “premium” ao produto. Naturalmente não vamos ter o arroz à venda nos supermercados, não é isso que se pretende. Mas que lhe seja acrescentado valor, que as pessoas o procurem, que paguem mais por ele, é assim que acontece também com o sal de Aveiro - é de melhor qualidade e eu como consumidora não me importo de pagar mais pelo sal e saber que é daqui da nossa região. Esta é a estratégia. Ou seja, produtos cada vez mais singulares, mais identitários, para que realmente esta identidade não se perca e a história do Baixo Vouga Lagunar não se apague, porque se Estarreja deixar de cultivar arroz apaga-se uma história da orizicultura em Portugal.
Neste contexto, que papel é que o museu pode desempenhar? Para além da simples evocação histórica?
Por exemplo, temos tido cá vários públicos escolares, onde damos a conhecer a identidade, a história da cultura do arroz. Temos que conhecer a história para perspetivar o futuro e é essa a nossa missão. E, depois, a estratégia de ativar de uma forma inovadora esta identidade com novas atividades, com uma programação que cative os públicos. Que tudo conjugado seja uma máquina impulsionadora para que esta cultura seja falada.
Uma dessas atividades que estão a promover é “Se estas paredes falassem” …
É verdade. Uma visita guiada gratuita e que tem a especificidade de contar com o contributo das pessoas que aqui trabalhavam, ou seja, uma evocação ao património imaterial novamente. Aproveitar que os ex-trabalhadores querem dar o seu testemunho e enriquecer a visita: o que é que a pessoas faziam aqui, como é que funcionava, quais eram as máquinas em que trabalhavam, qual era a vivência, a que horas entravam, quando é que saiam, como era o ambiente… A primeira sessão esgotou e estamos convictos que vai ser um sucesso.
Tem ideia de quantas pessoas que trabalharam aqui e ainda estão vivas?
Não lhe consigo dizer o número exato. Perdemos algumas pessoas que faleceram antes do museu abrir. Contam-se pelos dedos das duas mãos.
Dos 1.500 visitantes, a maior parte são pessoas de Estarreja?
Temos de tudo. Visitas escolares, público infantil e juvenil, visitas séniores, público de dentro e fora do concelho. Curiosamente, muitas pessoas da zona de Mondego, ou que são produtores de arroz, ou que estão ligadas à cultura do arroz. Cerca de 90 por cento das visitas são guiadas, e ainda bem porque conseguimos contar outro tipo de histórias, fazemos visitas guiadas com um storytelling bastante interessante.
O espólio do museu vai ser renovado?
Desde 14 de setembro temos o mesmo espólio, mas a nossa intenção é que seja em parte renovado, porque este museu tem a particularidade de contar com a participação da comunidade. Nós estávamos a montar o museu para o dia da abertura e apareceu uma peça que foi doada por uma munícipe. Ou seja, como as pessoas estão muito ligadas a esta cultura, foram doando objetos que tinham em casa, ou ligadas à cultura do arroz ou ligadas à antiga fábrica de descasque. Ou seja, nós temos algumas reservas que servem precisamente para ir renovando e mostrando peças novas.
Quer dar exemplos de objetos que as pessoas doam?
Temos, por exemplo, uma máquina debulhadora de arroz, que foi doada por uma munícipe. Essa máquina tem a particularidade de ter sido construída de forma artesanal, na década de 1940, por um pároco de Salreu que também era produtor de arroz.
Tornou-se recentemente mestre em Património Cultural e Museologia. É importante também para este trabalho no museu?
Sim. A minha licenciatura base é em Ciências Documentais, Biblioteca e Arquivo. Terminei a licenciatura em 2008 e há dois anos decidi voltar à faculdade. Sempre foi uma coisa que eu gostava, mas queria primeiro perceber qual era o meu caminho certo. Às vezes tiramos uma licenciatura, mas os caminhos moldam-se para outras áreas. Precisava de voltar a estudar, achava que devia sair da zona de conforto. Então, lancei-me novamente nessa aventura. Foi uma experiência única.... É penoso conciliar tudo, a vida profissional, a vida pessoal…. É duro. Mas depois a satisfação pessoal que advém não tem preço.
Qual foi o tema?
Abordei a temática da cultura do arroz e a indústria de descasque em Estarreja. O términus desta aventura aconteceu em outubro com a defesa da tese. Um final feliz com aprovação com distinção.
Como é que tem sido a experiência de ser diretora de um museu, e logo de um museu novo?
Uma experiência única com uma missão e responsabilidade acrescida. Confesso que me enamorei por esta área e temática desde 2017, quando iniciei o projeto dos testemunhos imateriais. Naturalmente, o caminho foi-se moldando para as áreas do património cultural e museologia. Tudo foi acontecendo no tempo certo. Depois tive a oportunidade de acompanhar todo o processo de criação do museu, de realizar a investigação histórica, de acompanhar a requalificação do edifício, o projeto da museografia, toda a preparação até ao último minuto que antecedeu a inauguração. É um projeto profissional muito enriquecedor, muito bonito e que envolve a comunidade. Sou do concelho e a história da cultura do arroz faz e fará parte das nossas raízes, da nossa identidade e do nosso património.
link: https://www.diarioaveiro.pt/2025/01/20/fabrica-da-historia-quer-ser-um-museu-vivo/