Arte e memória celebradas num fim de semana cultural em Estarreja

13 de setembro de 2026
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NOTÍCIA Diário de Aveiro
 
 
Projetos culturais assinalam datas marcantes num fim de semana em que a arte urbana, a memória industrial e a cultura do arroz se cruzam na valorização da identidade do concelho
 

Estarreja está este fim de semana em celebração cultural, com dois projetos a assinalarem datas marcantes: o ESTAU – Estarreja Arte Urbana, que comemora dez anos, e o Museu Fábrica da História – Arroz, que completa o segundo aniversário.

A 7.ª edição do ESTAU decorre até dia 20 e marca a década de um projeto que transformou o concelho numa galeria de arte a céu aberto. Ao longo destes dez anos foram criadas cerca de 100 peças, entre murais e instalações, assinadas por 54 artistas, 36 portugueses e 18 estrangeiros.

Para assinalar a primeira década, o festival apresenta dez novas intervenções, entre pinturas de murais, instalações artísticas e projetos comunitários, envolvendo artistas nacionais e internacionais. As propostas deste ano recuperam diferentes elementos da identidade local, com temas como as Festas de Santo António, o arroz, a construção naval, os moliceiros e o legado de Egas Moniz.

Durante a sessão comemorativa, Lara Seixo Rodrigues, responsável pelo planeamento artístico e pela curadoria do festival, destacou a evolução do ESTAU ao longo dos anos. «Nestes dez anos, é muito mais do que só paredes, do que só instalações. É a experiência que a gente tem aqui de arte e não só da arte, mas todas as disciplinas a dialogar entre elas, a dialogar com o território», afirmou.

A responsável pela curadoria considera que essa relação com o território é uma das características que distingue o percurso do festival. «O que nós também temos percebido é que, de repente, passaram-se estes anos e temos aqui mais de 100 peças. Muitas delas apresentam a história, não só da arte, mas também de nomes internacionais», afirmou Lara Seixo Rodrigues.

Também Isabel Simões Pinto, presidente da Câmara Municipal de Estarreja, recordou o início deste percurso. «Em 2015 conseguimos uma primeira peça de arte urbana que abriu portas a que pudéssemos depois concretizar este sonho de ter um festival de arte urbana. Foi em 2015 e, por isso, em 2016, nesta parceria extraordinária entre o município e a Mistaker Maker e a Lara, conseguimos concretizar aquilo que eram as nossas ideias e vontades de valorização do nosso património local, da nossa identidade cultural», recordou.

Dez anos depois, a autarca considera que o projeto acabou por ultrapassar a própria dimensão física das obras. «Fazer Estarreja num museu a céu aberto e hoje já são mais de 100 peças que temos em todas as ruas, não só da nossa cidade, mas de todas as freguesias do concelho. São muitas as memórias, muitas e boas, que vão, para mim, muito para além da questão das paredes ou das instalações que temos», afirmou.

Uma obra construida com as histórias de Canelas

É também esta ligação entre arte e comunidade que está presente numa das intervenções desta edição. Em Canelas, o artista Nuno Sarmento desenvolve uma residência artística em parceria com a Associação Cultural Estação Viva, procurando construir uma obra a partir das histórias e das vivências da população.

O processo começa longe da parede. Durante os primeiros dias, o artista vai percorrer a localidade, falar com os habitantes e desenhar os lugares, as paisagens, as pessoas e as histórias que lhe forem sendo transmitidas. «A minha prática artística é sobretudo desenho e vou estar a fazer uma residência dividida em duas partes. Na primeira, vou estar uns dias a passear por Canelas, a falar com as pessoas e a desenhar os sítios, as paisagens, as próprias pessoas e as histórias que elas me contarem. Depois, na segunda parte, vou transformar isto tudo numa composição e passar isto para um volume, para fazer um mural das histórias da região», explicou.

Nuno Sarmento quer, por isso, que o resultado final tenha uma forte ligação à comunidade e não seja apenas uma interpretação exterior do território. «Não tenho nada específico preparado. Sei só que vou desenhar o que encontrar e depois vou tentar fazer uma composição que crie alguma narrativa sobre o que as pessoas me estão a contar. Isto também vai contar com o apoio da Associação Cultural Estação Viva, que está sediada em Canelas, e a ideia é que este desenho não seja um desenho só meu, que as pessoas se revejam naquilo», explicou.

A participação no ESTAU representa ainda uma oportunidade para o artista levar o seu trabalho para uma escala diferente. «A minha prática ainda não passou muito por desenho mural. É sempre mais desenho em papel e, se calhar, outros pequenos suportes. Já fiz um ou outro mural, mas ultimamente tenho andado com muita vontade de expandir e criar projetos noutras escalas. Fiquei mesmo contente de ter esta oportunidade e poder ver os desenhos numa escala maior, com um bocadinho maior de impacto junto das pessoas», afirmou.

Museu do Arroz celebra dois anos de memória viva

O Museu Fábrica da História – Arroz assinala, por sua vez, o segundo aniversário com exposições, teatro em miniatura e visitas guiadas gratuitas. Inaugurado em setembro de 2024, após a recuperação da antiga “Hidro-Eléctrica de Estarreja”, o espaço tem procurado preservar a memória industrial e agrícola ligada ao arroz.

A presidente da Câmara Municipal de Estarreja, Isabel Simões Pinto, considera que o museu é hoje um espaço de «memória viva», destacando o trabalho desenvolvido para recuperar histórias de antigos trabalhadores e pessoas ligadas à produção e ao cultivo do arroz.

As comemorações incluem a inauguração, ontem, da exposição “Ciclo do Arroz”, de Anabela da Silva Ferreira, que através da ilustração percorre as diferentes fases do cultivo do cereal, desde a sementeira até à colheita. A artista explicou que o projeto nasceu de um convite do museu, depois de ter conhecido o espaço e o território envolvente. «A base era o ciclo do arroz. Ou seja, representar todo o processo, desde o início, desde a sementeira, a montagem e as várias fases da planta do arroz, mais verde, mais seca, até à colheita, quer manual, quer com animais. Depois há também a parte das máquinas que estão envolvidas no processo e, finalmente, a representação do arroz já descascado», explicou Anabela Ferreira.

Para construir o trabalho, a ilustradora recorreu também ao arquivo do próprio museu. «A criação partiu muito das imagens de arquivo que foram fornecidas pelo museu, com algumas referências mais visíveis de fotografias de atividades passadas. Eu trabalho com uma mistura entre aquilo que consigo observar no local, fotografias de arquivo e outras coisas que vou encontrando, tentando juntar tudo e construir uma narrativa», contou.
O processo permitiu-lhe também descobrir uma realidade que desconhecia em profundidade. «Primeiro de tudo, espero que as pessoas venham ao museu, que o conheçam melhor e que conheçam também o ciclo do arroz, que eu própria aprendi, porque não conhecia todas as suas fases. Foi muito interessante ficar a conhecer mais detalhes e conhecer também a história de algumas das pessoas que trabalhavam nesta fábrica», afirmou Anabela Ferreira.
O programa conta, ainda, hoje às 14.30 e 17 horas, com a estreia de “Um Tesouro na Palma da Tua Mão”, uma criação do Teatro e Marionetas de Mandrágora. Dentro de uma pequena caixa, a peça recupera memórias ligadas ao arroz, às máquinas e à antiga “Hidro-Eléctrica”. O espetáculo volta a ser apresentado dia 20, integrado na programação do ESTAU. 

 

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